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    “Me pergunto se essa sede de Paris, Londres, New York, Tóquio -???????- não vai nos afastando cada vez mais, de uma maneira irreversível, do que realmente importa. E o que realmente importa está ao alcance da mão, em qualquer geografia.”

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    (…)

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    “Será que a medida que você vai vivendo, andando, viajando, vai ficando cada vez mais estrangeiro?”

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    Caio Fernando Abreu

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    Cartas

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    “Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substintuindo a maconha por jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando pra Nova York, nem.

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    (…)

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    Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/e do corpo e, ao mesmo tempo, te distráia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu querido amigo.”

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    caio f., Morangos Mofados

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    “Aprendi que você precisa confiar em seus instintos. Existe um instante em que o ator percebe isso, e sabe. Atrás da câmera, você sente esse momento muito mais claramente. E, uma vez que o sentiu, uma vez que o conseguiu, não há como pensar duas vezes. Se eu andasse pelo set perguntando como ficou, me diriam: “Bem, puxa vida, não sei, apareceu uma mosca alí no canto.” Alguém sempre vai encontrar uma falha, e logo essa falha fica gigante, e você volta para o outro take. Enquanto isso, todo mundo esquece que existe um foco preciso, e ninguém vai perceber aquela mosca, porque você usou uma lente de 100 mm. Mas é isso que você pode fazer. Você pode ficar dentro ou fora da situação, de qualquer coisa. Pode encontrar um milhão de razões do porquê de alguma coisa não ter funcionado. Mas você sente que está certo, que funcionou, que foi positivo.

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    Sem soar como um pseudo-intelectual idiota, é minha responsabilidade ser verdadeiro comigo mesmo. Se funciona pra mim, então está certo. Quando começo a fazer escolhas erradas, eu saio de cena e deixo outra pessoa fazer por mim.”

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    Clint Eastwood, entrevistado por Tim Cahill para RS em 1985

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    Arturo, meu rapaz. Meu querido Arturo. Parece que você sofre tanto e tão injustamente. Mas você é corajoso, Arturo. Você me lembra de um valoroso guerreiro com as cicatrizes de um milhão de conquistas. Que coragem a sua! Quanta nobreza! Quanta beleza! Ah. Arturo, como você é realmente bonito! Eu o amo tanto, meu Arturo, meu grande e poderoso deus. Pode chorar agora, Arturo. Deixe as lágrimas escorrerem, pois a sua vida de luta, uma batalha amarga até o fim, e ninguém sabe disso a não ser você, ninguém exceto você, um belo guerreiro que combate sozinho, inflexível, um grande herói como o mundo jamais conheceu outro igual.

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    Fante em Caminho de Los Angeles

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    Cap. 51

    Será que eu boto no meu romance o incidente da lacraia? O incidente a lacraia foi assim: estava escrevendo deitado pelado na cama quando vi passar no rodapé, saracoteando seu rabo  de tesoura, uma lacraia. Com a minha fabulosa Reynolds Hi-Fi 096 azul-turquesa esmaguei a lacraia numa estocada certeira. Logo percebi a cagástrofe: não ia mais poder morder a minha Reynolds Hi-Fi 096 nos instantes de reflexão e bobeira. Então fui lavar a caneta na pia do banheiro e esterilizá-la com uísque. (Aproveitei para mandar um bom gole do gargalo). Que interesse poderia ter o incidente da lacraia do ponto de vista literário?

    Melhor cagar pro ponto de vista literário. Depois eu invento uma cascata qualquer pra me justificar. Por exemplo, direi que minha escrita se funda na estética d’o-que-vier-eu-traço. Como um super-oito feito por um flâneur-voyer. Takes ao léu. Quem sabe se não gruda?

    Escrever só o que pinta na cabeça quando calha da caneta estar na minha mão. Se os fragmentos-formarem um idéia de conjunto, ótimo. Se não, foda-se. Tanto faz.

    Agora o que eu queria mesmo é uma literatura que fosse, como Torquarto Neto, até a demência. E ficasse, como Chacal, entre o play-ground e o abismo. E tivesse a peraltisse é o lirismo de Oswald. E o sabor coloquial do Mário de Andrade. Nem confissão, nem ficção. Conficção. Nem obra acabada, nem obra aberta. Obra à-toa.

    Decidido: boto a lacraia no romance e boto também mais uísque nas pedras pra mim. Devolvo meu corpo à cama e me ponho a não fazer nada, ouvindo Milton cantar a felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar. Brisa tão leve…

    por Reinaldo Moraes em Tanto Faz

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  11. \x0a \x0a \x0a
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    -que tudo se foda,
    disse ela,
    e se fodeu toda

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    Leminski em Que tudo se foda

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    O amor antigo vive de si mesmo,
    não de cultivo alheio ou de presença.
    Nada exige, nem pede. Nada espera,
    mas do destino vão nega a sentença.

    O amor antigo tem raízes fundas,
    feitas de sofrimento e de beleza.
    Por aquelas mergulha no infinito,
    e por estas suplanta a natureza.

    Se em toda parte o tempo desmorona
    aquilo que foi grande e deslumbrante,
    o antigo amor, porém, nunca fenece
    e a cada dia surge mais amante.

    Mais ardente, mas pobre de esperança.
    Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
    e resplandece no seu canto obscuro,
    tanto mais velho quanto mais amor.

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    Drummond em Amar se aprende amando

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    “Saio.

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    Vago.

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    O que será. O que acontece comigo. Estou perdendo o controle. Antes, era eu quem dava as cartas. Cartas marcadas. O jogo era meu. Agora eu sou o boneco. Meu nome. Meu nome abria as portas. Hoje se guarda, costurado, na boca de um sapo. Isso tudo é coisa da ex. Ela está fodendo comigo. Ela me faz rastejar. Ainda ando, vagando. Fraco. Vazio. E então, sinto o estalo. Passo a mão. Puta mira! Bem em cima do esparadrapo. Agora eu. Agora eu sempre sou o careca. Eu só queria ficar no meu canto. Comer o meu lixo admirando a bunda. Isso era tudo. Isso era a peça que construía os meus dias. Mas a bunda se foi, Rosebud. Depois fui me apaixonar. Nunca tinha imagens no sono, agora, até dei pra sonhar. Não gostava de pessoa alguma. Agora. Agora me sinto tão só. É um jogo, e eu perco. Só não sei quem é o azarão. E agora tudo se encaixa. Fazendo um sentido absurdo. É macumba, é vodu, é o diabo a quatro. É jeje. Tudo se enquadra. Tudo me volta à ex. Ela disse que eu não me livraria tão fácil. Ela bem me avisou. Ela falou da amiga, cujo marido, no jogo, tudo perdeu. Meu amor é pau mandado. Arapuca da ex. É sapo, é boneco, é assombro, pesadelo, confusão e o caralho a quatro. Eu não tenho saída, ou acabo com ela. Ou acabo com ela. Ou acabo comendo ela. Ou sei lá mais o quê. Aí já estou no boteco.”

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    Lourenço Mutarelli em O Cheiro do Ralo

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    “Fazendo breve exame de consciência não posso me considerar um fracasso total. É bem verdade que deixei alguns otários escaparem e não desconfiei de uma tal Joaninha, insignificante, que se levantou no meio da noite, num hotel da Boca, como se fosse ao banheiro, e escapou me levando a carteira. Ossos do ofício. Estava de porre, evidentemente. No resto não me saí mal, chegando, em certa ocasião, a ter a vida que pedi a Deus. Para quem começou de tão baixo fui longe demais. E longe até de iate quando no auge da profissão. Fiz o que pude, ora sem tostão, ora com dinheiro que caía do céu, mas passando à distância das fábricas e de todo lugar onde se trabalha duro.”

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    Marcos Rey em Memórias de um Gigolô

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    “É comum ficarmos sem compensação nenhuma para um desastre, uma agressão, um erro, uma doença, o fim de um amor, a perda da pessoa amada. É uma questão de perspectiva, ou de fé. Nascemos com um prazo limitado para interpretar o mundo. Fazemos o que podemos. O legado de todos que nos precederam nesse esforço pode ajudar ou confundir, e em última instância ninguém nunca prova nada. Atribuir um propósito superior a um lance qualquer da vida é construir uma ficção muito pessoal. Dar sentido ao mundo é um ato criativo. Uma visão de mundo é uma narrativa.”

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    Daniel Galera em Cordilheira

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